Diarreia e dor abdominal crônica.

Paciente homem 30 anos, iniciou atendimento comigo em julho de 2025.

Nesta consulta referia dores abdominais associada a diarreia desde o início de 2023. A dor acontecia em ciclos, relatando “crises piores” em julho de 2024 e outubro do mesmo ano. Havia melhora parcial com uso de antibiótico e mesalazina, prescrito por outro colega. Houve perda ponderal associada ao quadro e o paciente tinha episódios noturnos de diarreia.

Foi investigado na época com: Colono 06/2023- íleo com 2 erosões puntiformes recobertas por fina camada de fibrina- Doença inflamatória intestinal? Conclusão do histopatológico- quadro histológico consistente com doença intestinal inflamatória.

Repetiu exames: Colono 04/10/2024- 15 cm de íleo examinados- presença de lesões esparsas, com halo de edema, hiperemia e fibrina no fundo da lesão. Conclusão: ileite inespecífica.=> na época relatou uso de anti-inflamatório. Histopatológico 04/10/2024- ileite focalmente erosiva. Os achados podem estar associados a colites infecciosas (especialmente yersínia) e reação a drogas (AINES).

Após a primeira consulta comigo foram solicitado novos exames endoscópicos, exame de fezes e imagem. Tomografia de abdômen foi normal. Exame de fezes revelou Calprotectina 9 (normal), coprocultura negativo e antígeno de entamoeba positivo. Laboratório com eosinofilia. Sorologias negativas para doença celíaca. Suspensa mesalazina. Prescrito tratamento para parasitose (fez 2 ciclos, pois no primeiro teve pouca resposta clínica).

Resultado da Histopatológico da colonoscopia:

íleo (normal)

biópsia de cólon direito e esquerdo: Mucosa de intestino grosso com alterações inflamatória discreta, inespecífica.
Presença de áreas focais com aumento discreto de linfócitos intraepiteliais.
Presença de áreas focais com aumento moderado de eosinófilos na lâmina própria.

Considerações do patologista: => 1) O quadro histológico visto nas amostras do cólon e reto é inespecífico, não se pode afastar com certeza a possibilidade de colite linfocítica.
=> 2) Eosinofilia do trato gastrointestinal, mesmo em pequena quantidade como nesse caso, pode estar associado a condições parasitárias ou alergia alimentar.

Na época o paciente tratou parasitose e ficou 6 meses bem, sendo a eosinofilia vista na biópsia atribuída por mim à parasitose. Quando o mesmo voltou a ter sintomas, foi optado por suspender a olmesartana que ele fazia uso e iniciado budesonida para tratamento de colite linfocítica (pensando na biópsia anterior). Também com pouca resposta.

O paciente segue com sintomas gastrointestinais, com dor abdominal, alternando diarreia com constipação. Foi ao PS em 12/2025 devido o novo quadro de “crise” de diarreia intensa com TC revelando “ileite”. Complementou com entero-RNM que foi normal.

O que sempre incomoda é essa ileite que vai e volta, em um paciente com diarreia crônica. Fico na dúvida se valeria outro exame endoscópico para ver se essa ileite vista na imagem voltou.

Apesar da investigação intensa não vejo evidência de DII. Mas o paciente segue com pouca resposta aos tratamentos empregados.

O que vocês acham?

Parecer Técnico:

casos leves com alterações inespecificas são mesmo um desafio! faria um ciclo de budesonida por 3 meses e reavaliaria os sintomas. caso necessário associaria um anti espasmódico pensando em componente funcional. se possivel faria USG intestinal. Essa semana peguei uma paciente muito semelhante com enteroRNM normal e alterações inespecificas na colono com calpro normal. Fiz USG e tinha alterações inflamatórias leves. Prescrevi budesonida…

Avaliado por:

Dra. Marjorie Argollo | CRM/SP 127.444
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